Aquele olhar eu conhecia, eu conhecia muito bem! Eu o senti tantas vezes e em todas elas, me alegrei. Quem era? Onde foi, em q momento? Como de repente algo tão próximo se tornou estranho, confuso, a memória borrada. Mas era assim, eu tenho certeza! Tinha traços de índio, modos civilizados, estudou na europa.Eu o conheci há muito e muito tempo, e não sei quem é. Tão atrás q poderia ser o menino q me amava aos 7 anos de idade numa escola pública? não... hj é venal e rico, com uma consciência muito oportunista disso.Essa expressão q eu me recordo é muito inocente, e sensual ao mesmo tempo.Meus deus quem é, quem foi? O jovem judeu que foi p israel servir na guerra? eu tinha 17 anos e o esperei por um bom tempo. O vi de novo,já velho, comum, econômico até o mau gosto.Não não era ele... quem era? estou inventando... eu acho q era marlon brando...nunca existiu de verdade.
Os amores na tela fizeram o jeito de amar da nossa geração.
Lembrei-me! não, não era índio, a pele era muito branca, ah! mas os olhos eram rasgadinhos, cobertos por oculos de fundo de garrafa, pequeno, baixinho, foi professor na universidade desde quando eu tbem era, aos 23 anos.Tímido, um nerd. Currículo infinito, precisaria ser carregado num carrinho de mão, numa dessas bancas universitárias. Sempre amável, sempre disponível. Casou-se com uma aluna muito mais jovem, agora, depois de velho, fiquei feliz, ficou esperto, normal.Dou-me conta q olhar dele me ama, nos encontros bissextos, onde dizemos bobagens, brincadeiras sem sentido, aqui ali, no banco, na padaria.Não importa o q se diz, a fala é desengonçada, e os gestos tbem. Se tentássemos nos beijar, nos daríamos coronhadas com nossas cabeças.
Tem vários olhares de índio como esses, em minha vida. Tem o do ex-aluno, cujas palavras tornam a vida a mais delicada literatura. Dou-me conta q êles me amam, sempre me amaram e me acompanham;e eu recebo essa carícia, refeita pelo tempo. Uma espécie de amor nos tempos do cólera, sem final, sem heroísmo, sem obstinação, sem corpo. Inefáveis amores,q só agora, no olhar de um ator, eu vi. O menino de Heráclito brinca com o tempo e com o amor,e é sério, quando os inventa.